Caixa beneficente: PM não tem curso de humanização

06/09/2010 12:05

 

Caixa beneficente: PM não tem curso de humanização

Publicada: 31/08/2010

 

A tensão urbana e a luta pela sobrevivência, aliada à falta de preparo para portar uma arma de fogo, tem contribuído para a ocorrência de crimes banais, onde a vida do outro passa a não ter valor. Esse é pensamento do antropólogo Fernando Lins, ao comentar o crime que teve como vítima o soldado da Polícia Militar (PM) Alisson Farias de Souza, morto pelo colega de farda, Bruno Campos Fernandes, após uma discussão por uma vaga de estacionamento, no último sábado, na orlinha da Atalaia. “O crime chocou todos nós”, disse também o gestor da Caixa Beneficente da PM, sargento Jorge Vieira, que criticou a forma como são formados os militares. “Só se faz ordem unida. Não temos curso de humanização”, lamentou.

Para o antropólogo Fernando Lins, quando as pessoas estão em uma situação de estresse perdem o controle dos próprios atos. Ao mesmo tempo, quando alguém tem a posse de arma de fogo “acha que tem poder, que tem força”, embora estas duas sensações sejam extremamente efêmeras. O sargento Vieira, por sua vez, diz que “falta Deus” nas pessoas, daí ocorrem fatos lamentáveis. “Estamos todos tristes com o que ocorreu. É um fato isolado, mas que acaba envolvendo toda a corporação”, disse o sargento Vieira que sugere uma discussão para rever o curso de formação dos soldados.

“Só temos ordem unida. Precisa que se trabalhe mais o humanismo, como um soldado deve tratar bem o seu semelhante”, afirmou, ao comentar, também, que a forma como é exercida a hierarquia dentro da PM é humilhante. “Não há diálogo com as bases. Quem está no topo impõe como as coisas devem ser e pronto. O soldado não é ouvido por quem está no topo”, reclamou o sargento.

Aliado a falta de diálogo, Vieira diz que os militares são submetidos a muito trabalho. No último domingo, por exemplo, durante a Parada Gay, na praia da Atalaia, os soldados chegaram por volta das 16 horas e somente às 18h30 é que tiveram direito a um lanche frio – cachorro-quente – e um copo de água. “Não havia estrutura de banheiro para ninguém”, afirmou Vieira, para dar exemplo das condições de trabalho em que a corporação é submetida.

Números

Os problemas envolvendo militares já levaram o comando da PM a abrir, de janeiro a julho deste ano, 194 sindicâncias, 196 inquéritos policiais militares e sete conselhos de disciplina. Desse total, quatro conselhos estão em andamento, um PM foi excluído, outro foi reformado proporcionalmente e em outro a PM opinou pela permanência desta pessoa na corporação. Questionado ao poder dos militares – portar uma arma, dar voz de prisão, etc. – o capitão Robson Donato, responsável pela Assessoria de Imprensa da PM, disse que “o militar responde por excesso ou por omissão”.

O capitão não quis comentar as opiniões pessoais do sargento Vieira, quando ele afirmou que não há humanização dentro da instituição. “É uma opinião pessoal e eu não discuto. Não tem base científica, não está comprovada essa alegação”, disse Donato. Quanto ao tiroteio na orla da Atalaia, envolvendo três militares, o oficial afirmou que o caso está sendo apurado.

O problema envolvendo os militares não foi o único na semana passada. O cabo PM José Hademecles Góis da Silva – que já havia sido expulso da corporação, mas retornou por força judicial – está preso sob acusação de ter estuprado a sogra e a ex-mulher. Dois dias depois de ter sido preso em flagrante, o cabo continua em liberdade.

 

Fonte: Jornal da Cidade

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